segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Boa noite

Caminho?

É um sonho?
Caminho pela sombra das árvores nuas?
E lá ao fundo é a casa?
E dentro da casa estás tu?

Eras
Ergueste-me nos braços
e dançámos uma valsa sem fim
És
Se não abrirmos os olhos
a noite não acaba
e ficamos neste encanto
Foste
até ser dia

Filomena, Novembro 09

( às vezes as palavras não precisam ter sentido, basta senti-las)


Hoje


E de súbito desaba o silêncio.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.

Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.


( Eugénio de Andrade )

domingo, 22 de Novembro de 2009

Bom final de domingo

do prazer


O prazer chegou do céu, agarrámo-lo, e ele suprimiu-nos, levou-nos para sempre e depois desapareceu.

( Marguerite Duras )


Ao chegar, o prazer, a ele sucumbimos e por nos ter criado permaneceu para sempre.

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Novembro de 2009

Canto



Canto-te então
e choro de emoção
na mágoa que aperta
e grita pela certa

Canto-te um fado
que sendo triste
não tem de o ser
mas que primeiro
sendo chorado
de dedo em riste
aponta o que a ver
como lumeiro
sabe o que é sofrer

Canto-te então
e magoado
sei que o que venha
tem de acontecer
e desta boca aberta
liberto o teu sofrer


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Novembro de 2009

sábado, 21 de Novembro de 2009

Boa noite

Pedido


Canta-me um poema triste, daqueles que magoam e fazem doer as lágrimas
Canta-me de amantes que morrem, de amores esquecidos e de aves sem asas
Canta-me um poema triste que vais declamar em voz baixa e contida
Canta-me um poema triste, daqueles que todos conhecem em suspiros de saudade
Canta-me um poema triste,uma vez e outra, para que eu adormeça solitária e magoado de tanto ouvir a tua voz sofrida


Filomena, Novembro 09

do poema


O problema não é meter o mundo no poema; alimentá-lo de luz, planetas, vegetação. Nem tão- pouco enriquecê-lo, ornamentá-lo com palavras delicadas, abertas ao amor e à morte, ao sol, ao vício, aos corpos nus dos amantes -

o problema é torná-lo habitável, indispensável a quem seja mais pobre, a quem esteja mais só do que as palavras acompanhadas no poema.

( Casimiro de Brito )

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Boa noite

Perder as asas

E no mesmo instante, assim como as folhas das árvores no Outono caem dos ramos, assim Oriana viu as suas asas cairem dos seus ombros e ficarem de repente secas e mortas como dois papéis velhos. E o vento passou e levou-as pelo ar. Oriana correu atrás delas, mas já não podia voar e as asas desapareceram. E viu a sua varinha de condão partir-se aos bocados e desfazer-se em poeira, que caiu no chão. E Oriana quis apanhar a poeira, e ajoelhou-se no chão. Mas a poeira já estava misturada com a terra e as mãos de Oriana só conseguiram apanhar terra.

( Sophia de Mello Breyner )

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Boa noite

Hoje


Deus — talvez esteja aqui,neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.


Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?


Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.


Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta.Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.

( Nuno Júdice )

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

e sabe bem...

Bom dia !

domingo, 15 de Novembro de 2009

Hoje ( me gusta quando callas )


Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
Y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma,
Emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
Y pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio,
Claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan,
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

( Pablo Neruda )